sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O truque é viver sem respostas

O truque é viver sem respostas...


Vivemos procurando respostas e acabamos nos viciando nisso.

Somos todos viciados em alguma coisa, talvez em uma idéia de nós mesmos ou de nossas vidas, talvez em uma idéia de sucesso ou fracasso. As vezes temos a idéia de que não temos idéia de nada e choramos. Choramos por não sermos capazes de achar respostas e achamos que está tudo errado com nós mesmo. Achamos e acreditamos que os caminhos que nos levam estão indo na direção errada, mas na realidade, nossos olhos mareados e nossa mente entorpecida não são capazes de ver. Olham, mas não vêem adiante.

Então seguimos. Talvez por acreditar no inacreditável, talvez impulsionados por uma força oculta, escondida nas mais obscuras esquinas do subconsciente, ou simplesmente, por acreditar no ditado pra lá de popular: “camarão que dorme a onda leva”. Então, seguimos!

Seguimos e, mesmo sem respostas, caminhamos esquecendo de nos perguntar quais as perguntas.

Cada um segue seu caminho ou destino (como queiram chamar), sozinho, caminhando e levando, sua própria cruz. Procurando uma solução mágica, talvez espírita para nos sentirmos bem, rezando para achá-las. Sim, estou novamente falando delas, as respostas.

Mas esperem. Mais uma vez, quais são as perguntas?

Não estou falando de qualquer pergunta, as triviais não importam, deixe-as de lado, com ou sem respostas. Estou falando das perguntas que tiram o sono. Quando você, parado no sinal, olha para o lado e vê um homem de meia idade, com um olhar vago, perdido no horizonte, coçando a cabeça, acreditem. Ele está se perguntando. Ele está buscando respostas e significados que façam tudo valer a pena. Que faça valer a pena o suor de cada dia, que faça valer a pena as lágrimas derramadas e os detalhes – sim – tudo é feito de detalhes. Aquele homem está buscando respostas, mas – pasmem – não é no horizonte que ele vai achar.

Ele não as encontrará no horizonte, por que elas não estão lá, mas, por favor, não venham me perguntar onde elas estão, eu não sou a pessoa mais apropriada para te dar respostas, pois eu, assim como você, também sou humano e tudo que os humanos podem fazer é tentar adivinhar, imaginar e esperar.

Portanto, reze para não pensar que você achou as repostas, por que isso é besteira.

O truque é viver sem respostas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sonetos de Shakespeare

Então, resolvi fazer uma homenagem. Coisa bela e singela.

" Outro dia, andando pelo centro da cidade, eu resolvi me dar um presente: sonetos de Shakespeare.

Parece uma atitude boa dar-se tais presentes, se eu não tivesse de ter gasto meus últimos tostões, meus últimos tostões, meus últimos, aqueles destinados ao aluguel da casa em troca dos sonetos de Shakespeare.

Parei em frente a uma livraria e, como um cachorro que só sabe do tempo que anda com o olhar no frango que gira, como o cachorro que sabe da gravidade pela baba que desce da boca, fiquei horas seguidas ali babando sobre a vidraça, que não permitia que minhas mãos tocassem os sonetos de Shakespeare.

O comerciante de livros aproximou-se com um sorriso fosco, perguntei quanto custaria para que os sonetos fossem meus. ele então sorriu, menos fosco e mais vil, e disse-me: ‘custa tanto’. o tanto que ele disse era pouco, nem sabia, até porque ele vendia Shakespeare, pense, junto com culinária e magia. mas as minhas mãos queriam tocar os sonetos de Shakespeare

Cavei o bolso e, cédula a cédula, moeda a moeda, deu justo pra pagar e voltar pra casa, nada mais.

Esta noite eu sou um homem sem garantia de que amanhã eu terei casa porque eu não paguei o aluguel. quanto à minha alma, ela sobrevive a essa ameaça, tomada pela mais sublime graça em habitar os sonetos de Shakespeare."

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

EDUARDO E MÔNICA

EDUARDO E MÔNICA


Tarde de sábado – 16h – Casa do Eduardo:

O despertador tocava insistentemente aquele doloroso som que diariamente tirava Eduardo dos braços de Morfeu, arrancando-lhe de seus sonhos, trazendo para a dura realidade do dia-a-dia. Para aquele jovem tomado pela preguiça e a vontade de dormir mais um pouco, aquilo parecia um sádico ritual que lentamente o torturava, atirando-lhe de volta no mundo dos acordados.

Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar ficou deitado e viu que horas eram. Aquele mesmo despertador apontava que já passara das 16h. Ainda inebriado pelo sono, Eduardo assustou-se com o horário, mas subitamente, lembrou-se que era tarde de sábado e que, devido a farra do dia anterior, dormiu muito mais do que de costume.

Tarde de sábado – 16h – Outro canto da Cidade:

Longe dali, em outro canto da cidade - como disseram - Mônica estava acompanhada de velhos amigos e falavam sobre o último filme de Almodóvar, discutiam alegremente o enredo e a fotografia enquanto tomavam conhaque e assistiam aquele belo fim de tarde no Planalto Central, aguardando o pôr do Sol e o nascer da Lua, acompanhada de suas fiéis companheiras, as estrelas.

Noite de Sábado – 10:03h – Lugar qualquer:

Naquele mesmo sábado à noite, Eduardo e Mônica acabaram se encontrando, foi tudo muito inesperado e pra falar a verdade, podemos até dizer que foi totalmente sem querer.

Eduardo passava distraidamente por entre as cadeiras daquele Bar, um ambiente Cult e alternativo, onde as pessoas andavam despojadas e sem nenhuma formalidade. A Banda formada por jovens Universitários tocava um sucesso do Rock ´n roll nacional dos anos oitenta, um violão de cordas de aço plugado junto de uma guitarra de som distorcido e uma percussão bem no estilo acústico de garagem derramava no ambiente uma música retrô que, acompanhada de uma meia-lua que a vocalista empunhava com aqueles belos cabelos loiros e uma voz rouca, cantando:

“Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba...”

Mônica que sentada em umas das mesas, de olhos fechados, acompanhava cantando baixinho a bela música que entrava por seus ouvidos tocando de leve seu coração, trazendo uma saborosa sensação de paz e um gostinho de nostalgia, nem reparou naquele rapaz desengonçado que vinha andando apressadamente em direção ao banheiro.
Eduardo, que andava sem reparar nas pessoas ao lado, cantava aquela mesma música, agora embalado por uma estranha sensação de liberdade que alguns copos de cerveja gelada costuma lhe proporcionar, passou pela mesa onde Mônica estava sentada e alguma coisa lhe roubara a atenção.

Naquele mesmo instante, Eduardo parou e reparou nela. Era Mônica, sentada de olhos fechados, linda, de cabelos soltos, cantando livremente e sem dar a mínima para qualquer pessoa ao seu lado, simplesmente curtindo o momento e o som, aquele indescritível solo de guitarra, livre. Eduardo sentiu um palpitar diferente no coração, não sabia e não teria a pretensão de tentar descrever o que sentira. Naquele instante em que o tempo parecia parar, a música tocava, mas ele já não conseguia ouvir, as pessoas andavam ao seu redor, mas ele já não conseguia ver ou senti-las, o vento soprava, os sentidos se entorpeciam e enquanto sua mente dava voltas dentro daquele segundo mágico, a sensação era que haviam passados dias ou anos, foi eterno.

Naquele momento, Eduardo estava longe da realidade quando a música parou e Mônica abriu os olhos aterrisando de seu voou musical, ainda a tempo de reparar naquele jovem ali parado, olhando fixamente para ela, mas com um olhar perdido em um universo distante, mas colorido, sem dúvidas.

Os olhares se cruzaram. Impossível descrever um momento como esse. Não existem palavras suficientes para tanto ou, se existirem, falta talento e sobra pretensão. O tempo que parecia parado para Eduardo volta a correr de maneira mais acelerada, como que para compensar os momentos de pausa e o tempo perdido. Os momentos que se passaram depois que Mônica abriu os olhos foram bastante constrangedores para Eduardo que, tentando disfarçar o que já era impossível de esconder, passou a andar ainda mais apressado, esbarrando nas pessoas e cadeiras até se perder dos olhos de Mônica.

Aquele estranho espetáculo era único e chamou a atenção de Mônica. Quem seria aquele jovem e por que ele estava ali parado, olhando-lhe fixamente enquanto ela simplesmente curtia o momento, deixou Mônica intrigada. Mais estranho ainda era aquela sensação que sentira no momento em que viu o rapaz. Mônica já não era nenhuma adolescente, estava acostumada com momentos como aquele, mas esse momento e, em especial, aquele rapaz, deixou-lhe inquieta. Mônica pensou, mas não ousaria dizer que sentiu como se uma flecha lhe cravasse o coração, seria demasiadamente piegas e um tanto clichê, não acreditava em contos de fadas.

Enquanto isso, o rapaz perdeu-se na multidão, dobrou a esquina do bar e era impossível tentar segui-lo, ir atrás dele. Os minutos passavam e Mônica olhava fixamente para aquele cantinho onde vira Eduardo pela ultima vez, esperava que ele voltasse, não sabia o porquê daquela estranha sensação, mas não conseguia parar de pensar naquele momento, estranho, mas único.

Noite de Sábado – 10:04h – Banheiro do Bar de um Lugar qualquer:

Eduardo olhava fixamente sua imagem refletida no espelho do banheiro e, espantado com aquele sorriso bobo no rosto, não conseguia parar de pensar naquela menina e naquele momento radical, respirava e tomava coragem para voltar até ela e dizer alguma coisa. Tinha medo de dizer alguma bobagem, sabia que isso aconteceria, era inevitável. Respirou fundo, contou ate três e foi. Com passos firmes fez o caminho inverso, dobrou a esquina do bar e avistou Mônica, que avistou Eduardo, que caminhava decidido em sua direção, alegrou-se e deixou escapar um sorriso. Foi o que faltava para Eduardo se encher de coragem e chegar até ela a tempo de dizer – como era de se esperar - uma bobagem.

Mônica sorriu, era estranha abordagem do rapaz, normalmente teria virado e ido embora, mas não daquela vez. Eduardo e Mônica ficaram ali por horas, simplesmente conversando, muito mesmo pra tentar se conhecer até que um carinha do cursinho do Eduardo aproximou-se e falou de uma festa legal, perfeita para eles que queriam se divertir.

Mas Eduardo estava entusiasmado com a conversa, disse que não ia, não queria sair dali para ir a alguma festa estranha com gente pra lá de esquisita, pra falar a verdade ele já não agüentava mais birita. Mônica riu e quis saber um pouco mais sobre aquele “boyzinho” que tentava impressionar, mas Eduardo já estava meio tonto e só pensava em ir pra casa, apesar da agradável conversa dos recém conhecidos, olhou para o relógio e pensou: São quase duas eu vou me ferrar!

Eduardo e Mônica trocaram telefones, depois telefonaram e decidiram se encontrar. Eduardo sugeriu uma lanchonete perto do Lago Paranoá que tinha um sanduíche de atum com ervas doces e um Milk shake maravilhoso. Mas Mônica falou de um filme novo que tinha estreado no cinema ainda naquela semana, alguma coisa Cult de um tal de Godard. Eduardo não tinha idéia de quem seria aquele rapaz, se seria ator, diretor ou mesmo algum personagem do filme. Pensou, ponderou e decidiu que não seria uma boa idéia sair para um primeiro encontro e assistir um filme que ele não sabia do que se tratava, imaginou que, como de costume, iria acabar falando alguma bobagem e deixar Mônica achando que ele era um completo idiota, ou coisa do gênero.

Tarde de quarta-feira – 17h – Parque da cidade:


Depois de muito insistir, acabaram se encontrando em um parque da cidade. Mônica chegou um pouco mais cedo em sua moto estilo Harley, vestida com uma jaqueta de couro preta, cabelos soltos e ainda chateada por ter perdido o filme que acabou sendo um dos maiores sucessos do aclamado cineasta Francês. Eduardo chegou pouco depois em seu camelo, inseparável meio de transporte que sempre lhe levava para todos os cantos da cidade, uma bicicleta “Caloi 10” que ganhou como prêmio, por ter sido campeão do primeiro campeonato de botão da quadra 213 Sul, em Brasília.

Eduardo, apesar de ter chegado depois de Mônica não estava atrasado, chegou na hora marcada e estranhou os cabelos vermelhos de Mônica, achou melhor não comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo. No dia em que se conheceram, era noite e ele não tinha reparado naquele pequeno detalhe. Era diferente, mas como tudo em relação àqueles dois fugia à normalidade, Eduardo logo se acostumou com a idéia e, pra falar a verdade, gostou do que encontrou. Estava parada diante dos seus olhos brilhantes uma mulher peculiar em todos os sentidos.

Eduardo e Mônica se divertiram bastante com aquela conversa que começou no fim de tarde, entrou pela noite e se estendeu até a madrugada, regada por muitas gargalhadas e a certeza de que eles não eram nada parecidos. Só para se ter uma idéia, enquanto Mônica era de Leão, estava no oitavo semestre da faculdade de Medicina e falava perfeitamente alemão, Eduardo tinha dezesseis anos de idade e ainda estava nas aulinhas de Inglês.

Quando o assunto eram as artes, aí era que a diferença saltava aos olhos, Mônica era fissurada pelo que se tem de mais Cult e diversificado no mundo artístico. Falava sem parar sobre as pinturas impressionistas de Van Gogh ou do brasileiríssimo Bandeira, ouvia e até tentava tocar no violão as músicas do Caetano e dos Mutantes, era fã do estilo e da voz da Rita Lee e passava horas sem parar lendo Rimbaud. Enquanto Mônica falava entusiasmada sobre suas preferências artísticas, Eduardo ouvia tudo aquilo pensando que ficava feliz mesmo era assistindo uma boa novela mexicana ou então – pasmem - jogando futebol de botão com seu avô.

Era tudo muito radical. Estranho como duas pessoas completamente diferentes poderiam encaixar assim, tão bem e tão rápido. Naquela tarde não nasceu um relacionamento, mas brotou o amor. Naquele momento, não veio a exata noção do que seria passar juntos todos os dias que lhes faltavam, mas nasceu a vontade de tentar, de encarar o desafio.

Eduardo e Mônica conversavam sobre tudo, trocavam idéias de como as coisas aconteceram no passado, falavam do presente e imaginavam como seria o futuro. Mônica falava coisas sobre o Planalto central, também magia e meditação e o Eduardo ainda estava o esquema Escola-cinema-clube-televisão.


Noite de um dia qualquer – 23h – Lugar qualquer:

Mesmo com tudo diferente veio mesmo de repente uma vontade de se ver e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia como tinha de ser. A vontade crescia exatamente como tinha de ser, por que era isso que estava escrito pra acontecer. Explicações não há para tentar delinear os acontecimentos nesse universo de paixão e desejo, tentar usar a razão pra explicar as coisas do coração, mostrou-se totalmente em vão, pois aqueles dois eram a prova viva e presente de que duas pessoas tão diferentes poderiam se completar e ser, simplesmente, uma só.

Daquele estranho momento no Bar universitário em que os dois cruzaram os olhares pela primeira vez em diante, aconteceu de tudo um pouco. Embalados pela emoção que trazia a paixão eles decidiram passar o máximo de tempo juntos, fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar. A Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o Céu a Terra a Água e o Ar. Eduardo aprendeu a beber, mas também, cresceu muito com aquele relacionamento, foi criando maturidade e cabelos, deixou-os crescer e até decidiu trabalhar (Uoooou!) É verdade!

O tempo foi passando e aquele casal inseparável correndo atrás de suas responsabilidades e preocupando-se com o futuro e com o que viria pela frente. Eduardo passou a estudar para acabar o colégio, enquanto Mônica se preocupava em colar grau. Assim, coincidentemente ela se formou no mesmo mês que ele passou no vestibular.

Os dois comemoraram juntos, mas também brigaram juntos muitas vezes depois. Era sempre assim, como todo casal, juntos nos momentos de alegrias e tristezas, nas brigas e nas reconciliações, que é o que faz valer a pena um relacionamento. Na hora da discussão, odeio mortal, na reconciliação, amor eterno e, apesar dos pesares e dessas muitas brigas juntos, todo mundo que via, dizia que ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.

A vida continuou e os dois batalharam grana, correram atrás dos sonhos tentando uma vida melhor. Cada um conseguiu um emprego bacana e já que estavam morando juntos há algum tempo, decidiram construir uma casa maior. Isso aconteceu mais ou menos na mesma época em que os gêmeos vieram, vocês sabem né, eles precisavam de mais espaço pras crianças

Como todo relacionamento, o deles viveu tempos de crise, de altos e baixos. Mas juntos eles seguraram legal a barra mais pesada que tiveram e seguiram em frente. Sempre apoiados pelo amor e respeito mútuos, Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília e, pra dizer a verdade pra vocês, nossa amizade dá uma saudade danada no Verão, mas o pior é que nessas férias eles nem vão viajar, porque o filhinho do Eduardo esta de recuperação, puxou ao pai!

É exatamente nessas horas que eu me pergunto e, por favor, quem souber uma resposta me comunique, telefona, manda e-mail, faz qualquer coisa, mas digam: Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração, e quem irá dizer que não existe razão?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Foto...

A Foto...

E lá estava a foto. Era a mesma de anos atrás. Trazia uma poesia livre de palavras, era uma imagem que, sozinha, transmitia uma sensação que entorpecia a alma, sutilmente.

A foto era a mesma e ficara ali por anos, apoiada na parede, em cima do criado-mudo, muda, sem dizer uma palavra. Claro! Fotos não falam, mas dizem suavemente o que o coração quer ouvir. Trazem aquela sensação inebriante de que algo bom um dia aconteceu e foi simplesmente da maneira que deveria ter sido, sem tirar, nem pôr.

A foto estava lá, as cores eram as mesmas, talvez um pouco desgastada pelo tempo, mas que, curiosamente, dava um ar de nostalgia àquele pedaço colorido de papel que insistia em me levar de volta para além dos muros de pedras que nos separam do pôr do sol diário.

Aquela foto. Ah! Aquela foto. Ela ficava ali parada como uma espécie de refúgio da alma que massageava meu coração com as mãos puras da saudade toda vez que distraidamente olhava praquele cantinho do quarto.

Era só uma foto. Um retrato de um momento como tantos outros momentos inesquecíveis da vida, mas que, com uma ajudinha da tecnologia, ficou plasmado pra eternidade, registrado nas lentes do ontem, levando pro amanhã a sensação que hoje tento levianamente descrever.

E assim a foto continua lá, cumprindo seu doloroso mais saboroso papel de comprovar a veracidade de um momento de felicidade que se vai lentamente, nas asas do tempo, mas deixando seu rastro de cores, como em um caleidoscópio sem lógica. E o que fica são vibrantes pontos de exclamações transmitindo a sensação dos que posavam para as lentes do fotógrafo – pobre rapaz por trás da câmera - esquecido, mas refletido nos olhos daqueles entusiasmados personagens pontificados. Dito isso, ponto final

A Foto

terça-feira, 2 de junho de 2009

Detalhes

Detalhes

São os detalhes que fazem a diferença.

Ao contrario do que muitas pessoas imaginam, não são os grandes acontecimentos mundiais que realmente importam, estes não passam de eventos simbólicos que simbolizam alguma mudança em determinado período da história humana. São os detalhes singulares que passam despercebidos dentro de cada uma dessas histórias que fazem da vida, o que ela é.

Se vocês acham que na queda do muro de Berlim o que importou realmente foi a derrubada do muro ou na ocasião do incêndio em Roma o fato de Nero ter acendido a primeira tocha para depois poder reconstruir a cidade com esplendor traduz a realidade escondida por detrás de suas verdadeiras razões megalomaníacas, ou ainda, no 11 de setembro, se você acredita que o objetivo era simplesmente derrubar aqueles prédios, vou dizer-lhes uma coisa. Vocês estão redondamente enganados, por trás de tudo isso, sempre existe um detalhe, que é realmente o que fez toda a diferença.

O Brasil não foi descoberto por Pedro Álvares, nada disso, um pequeno e importante detalhe moldou a história da maneira como nós a conhecemos. Na verdade, os Espanhóis chegaram aqui antes, só que eles – digamos assim - esqueceram de contar pra todo mundo. Já Pedrinho, malandro que é, ouviu rumores nos bastidores da corte espanhola durante uma viagem de férias à Espanha. Voltou às pressas para Portugal e tratou de abastecer com mantimentos sua principal caravela, Santa Maria, mandou construir Pinta e Nina, caravelas reservas, para no caso de acontecer algum imprevisto no caminho e levantou velas com destino ao novo mundo. Chegando ao Brasil, ainda encantado com as índias que perambulavam nuas pelas praias da Bahia (Ô Mania feia essa de brasileiro de mostrar a bunda!), deu publicidade ao mundo de tudo o que vira aqui, mandando Pero váz escrever a solene e conhecida carta ao Rei. Resumindo, os Espanhóis chegaram, mas não levaram, já os portugueses saíram contando vantagem e espalhando a notícia pelo mundo afora. Assim, eles ganharam o Brasil e, de quebra, ainda levaram nossas riquezas de brinde. E depois dizem que português é burro, ora pois!

E tem mais, não pensem que acabou. Imaginem vocês, que Adolf, o Kaiser comandante dos exércitos Alemães na segunda grande guerra, que assolou a humanidade, matando aproximadamente 50 milhões de Pessoas, a maioria Judeus, foi, na verdade, cabo do exército Austro-Húngaro, anos antes, durante a primeira guerra mundial. Uma história que poucos sabem, narra um acontecimento em que, por um detalhe, toda a negra história bélica Européia do século passado poderia ter sido completamente diferente.

Conta a história que, durante uma batalha ao Sul da Itália, Hitler estava entrincheirado aguardando o inimigo quando um soldado, comandado por ele na ocasião, avisou que seu coturno estava desamarrado, o então Cabo abaixou-se para amarrar seus cadarços no momento exato em que um disparo havia sido efetuado pelo inimigo escondido pela escuridão da noite. Aquele tiro certeiro parou no monte de areia exatamente atrás de onde estava a cabeça de quem, anos depois, deflagrou a mais sangrenta e repugnante guerra que a humanidade já testemunhou. Ai ai! Detalhes.

Vou contar outra. Lembro-me como se fosse hoje, o cenário era perfeito. Aquele domingo ensolarado confirmava o que o poeta já havia cantado anos antes, o Rio de janeiro continuava lindo. O estádio Mario Filho, que ao longo dos tempos já foi chamado de diversas formas, umas não menos verdadeiras que as outras, estava completamente lotado. Naquela tarde, no templo do futebol, no maior do mundo, ou simplesmente, no Maracanã – como queiram- aconteceu um dos maiores momentos que o Futebol já presenciou, um daqueles momentos que parecem ficar plasmados no tempo e nos corações daqueles que presenciaram. Vasco e Flamengo, rivais históricos, disputavam a final do campeonato Carioca daquele ano. As equipes se equivaliam em todos os aspectos. Técnica, tática e emocionalmente aquela tinha tudo para ser uma bela e inesquecível partida, e foi.

Os dois times se jogaram para o ataque com a sede impar de vencer e, nos minutos finais do segundo tempo, o flamengo vencia pelo placar de 2x1, mas não era suficiente. No primeiro jogo, o Vasco havia vencido e, para ser campeão, o Flamengo precisaria vencer por dois gols de diferença, 2x1 simplesmente não era o suficiente. Foi quando, na tentativa desesperada de parar o ataque rubro-negro, o zagueiro cruz-maltino cometeu uma falta na intermediária de sua defesa. A falta era longe, mas isso não impediu que o meia-atacante flamenguista pegasse a bola e posicionasse para a cobrança. Nas arquibancadas um silêncio ensurdecedor tomava conta das duas torcidas que, aflitas, demonstravam expressões distintas. Os vascaínos torciam pelo fim do jogo, os flamenguistas rogavam aos céus por mais um gol, aquele que daria ao seu time a vitória e o campeonato.

O Sérvio Petcovich ajeitou a bola com um carinho fraternal. Elton, goleiro vascaíno, preparou a barreira com seus mais altos sete jogadores. A torcida, roendo as unhas, nem piscava para não perder nenhum detalhe daquele momento de perigo no jogo. O Juiz apitou autorizando a cobrança, os repórteres prepararam e apontaram suas câmeras. Pet correu e chutou, a bola viajou, desenhando uma curva inacreditável nos céus daquela tarde de domingo, a barreira pulou, a bola por ela passou, o goleiro correu, saltou e se esticou todo, a bola ainda raspou de leve nas pontas de seus dedos antes de atingir as redes transformando aquela metade do estádio em um grito de gol indescritível. O Flamengo mais uma vez era campeão carioca, mas dessa vez não era qualquer título, era um tricampeonato e conquistado logo em cima de seu principal rival e maior “inimigo”, Vasco da Gama.

Uma falta aos 42 minutos do segundo tempo, uma cobrança magistral que raspou nas mãos do goleiro transformou a história daquela tarde, daquele campeonato e, principalmente, daqueles corações apaixonados. Viram? Detalhes

Não é a toa que o poeta um dia cantou para quem quisesse ouvir que, detalhes tão pequenos são coisas muito grandes pra esquecer e, acreditem, a toda hora vão estar presentes, vocês vão ver...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Tem horas que é melhor esquecer

Tem horas que é melhor esquecer. E esperar o dia amanhecer

Nem muitas vezes procurei achar onde errei. Nem foram tantas as vezes que procurei onde acertei. Mas como vou saber?
Tem horas que e melhor esquecer.

Esquecer da vida, dos problemas e principalmente, das aflições. Quem sabe a gente pode se entender ou se for tarde de mais, que seja assim. Espere o dia amanhecer, pois não vou mais me importar nem chorar, esperar por quem ha tempos deixou de vir.
Agora, como eu vou saber se tem horas que é melhor esquecer?

Vou sair. Vou sair sem rumo, sem lenço e sem documento. Vou sair pra ver o sol, esperar pela lua e suas fieis companheiras, as estrelas. Eu nunca quis presenciar o fim, agora que tudo se foi e que nada restou pra mim, vou embora sem pensar. Sem pensar no que ficou nem no que se foi. Agora sei que são coisas que somente o tempo irá curar.
Mas me diga, por favor, diga.
Como vou saber se tem horas que e melhor esquecer?

Como vou saber se têm horas que é melhor esquecer ou se esquecer alguma hora é o melhor? Quantas são as duvidas? Poucas são as respostas para as muitas perguntas. Penso em esquecer, mas penso também que esquecer é fugir da verdade, fugir da verdadeira realidade que está bem na frente dos meus olhos e eu nunca fui de fugir de coisa alguma. Não, eu nunca fui assim.
Agora espero o dia amanhecer pra ver o que é melhor fazer.

Dias atrás, pensava em muitas coisas, não é assim mais. Nunca mais espero passar por tudo aquilo, tantos dias sem entender o porquê do sofrimento. Olho pra trás, mas penso e sigo em frente pra nunca mais viver assim.
E agora, como vou saber se têm horas que é melhor esquecer?
É por isso que agora estou aqui, esperando o dia amanhecer, pra ver o que é melhor fazer.

Vou parar, vou descansar, não quero mais pensar. Nada faz sentido, tudo me deixa louco. Na verdade, não sei bem o que é tudo isso, nem sei onde fica o final e se é que existe um. Procuro ao menos a luz no fim do túnel e quando tudo me vem à mente, vejo com clareza a inferioridade dos problemas diante da magnitude das soluções. Lembro-me então, do poeta que disse em momento de pura inspiração, que o sol sempre voltará a brilhar. È nessa hora que olho pra cima e contemplo o espetáculo da dança das estrelas e da lua. Vejo, então uma estrela candente desfilando pelos céus e penso em fazer um pedido, lembro-me de todas as aflições que me corroia o âmago a poucos momentos e esqueço de pedir por elas, esqueço de pedir por mim. Lembro-me das outras varias pessoas que podem estar vendo a mesma estrela cadente e pedindo coisas muito mais importantes. Deixo, então, que a estrela se preocupe com os problemas dessas pessoas, tão mais aflitas, tão mais esperançosas.

Estranho como quase que de repente, vejo luz no fim do túnel e ele está sem paredes. Vejo o sol voltando a brilhar e, assim, esqueço de sofrer.

Lembro-me agora, da primeira frase. Foi exatamente quando não procurei achar onde errei que acertei.
Agora eu sei, existem horas que é melhor esquecer por que só então, o dia irá amanhecer.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

terça-feira, 7 de abril de 2009

Abraço da Felicidade

Abraço da Felicidade

Dane-se! Vou embora daqui. Fecho os olhos e me vejo partir, voando.

Para onde?

Pouco importa.

Esse é sempre o problema de todos que são demasiadamente ordinários. Eles vivem a vida a qual são impostos, submetidos a levar a vida que os outros querem que eles vivam.

Liberdade! Eles não se libertam.

Para onde? Perguntam-me insistentemente.

Para onde?! Exclamativamente. Para onde?!

Para qualquer lugar? Respondo interrogativamente. Quero deixar a dúvida no ar.

Deixo transparecer não saber para onde estou indo e, na verdade, não tenho absoluta certeza. Meu destino é incerto, meu destino é qualquer lugar onde sonhar seja permitido e, assim, vou voando essa noite.

Vejo do alto, as pessoas indo e vindo tentando saciar suas sedes nada puritanas de desejos obscuros tão bem maquiados e camuflados no íntimo de cada um dos que transitam pelas vielas escuras daquele pequeno pandemônio lá embaixo, ou mesmo dos que alimentam suas más tendências no anonimato de suas mentes peçonhentas em noites de volúpia.

Sabe, quero ser feliz. E pouco importa quem se importa ou deixa de se importar. Na maioria das vezes as pessoas só querem ter do que falar ou - o que é pior - ter de quem falar. Estão realmente entediados com suas vidinhas corriqueiras e cheias de rotinas, estão tão cheios de se sentir vazios que acabam sentindo um prazer quase orgasmático em falar e viver a vida alheia.

Quer saber, não vou ficar me preocupando com eles, afinal de contas, quem são eles pra me julgar? Não são nada melhores do que ninguém e, além disso, eles serão os primeiros a darem risadas quando eu ou qualquer outro não for feliz, como eles não são.

Daqui de cima tudo é mais claro, as coisas estão todas desnudas da hipocrisia venenosa que costumeiramente tentam usar para encobrir a verdade. Vou quebrando as regras da sociedade e assim me sinto livre. Por isso voou.

PARA ONDE?

Dane-se! Aqui não vou ficar.

Adaptar-me?! Ser mais um nesse quase admirável mundo novo?!

Não mesmo.
PARA ONDE?!

Mais uma vez e pela última vez.

Para onde?!

Agora sim. Agora posso responder.

Vou para mais perto de mim mesmo. Quem quiser me seguir, basta ter o coração dos que amam a vida e as pessoas da maneira como elas são, essa é a ideologia do amor, esse é o abraço da felicidade, são os olhos da paz e todo o resto que fique para trás.

Bom dia ao novo dia. Bom dia.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Lucy no céu com diamantes

Lucy no céu com diamantes

Imagine-se dentro de um estranho barco, acompanhado de Lucy, uma excêntrica menina com olhos de caleidoscópio, navegando lentamente rio abaixo onde as árvores ao redor parecem feitas de tangerina e o céu acima de nossas cabeças é como uma brilhante e suculenta gelatina.

Nas margens, você caminha com os pés descalços, tocando suavemente as flores feitas de papel celofane amarelas e verdes que balançam ao sabor dos ventos e se sobressaem sobre sua cabeça, algumas atingindo as mais baixas folhas das árvores de tangerina. Em meio à caminhada você parece procurar alguém, procura por ela, a menina que tem o sol em seus olhos, mas estranhamente, ela se foi.

Ela não mais está lá, pois Lucy esta no céu com diamantes

Você procura e procura, mas é em vão. Vira-se lentamente para olhar na direção do rio e avista que em sua margem existem taxis de jornais, onde se podem ler as noticias em todas as partes do carro, nas portas e nas janelas, eles lhe aguardam para levá-lo de lá, para outro local onde, talvez, você possa encontrar quem procura. Mas ainda não é a hora, dê meia volta e suba o rio com sua cabeça nas nuvens e assim, você se foi.

Você se foi para lá, foi para onde ela esta e Lucy está no céu com diamantes.

Agora imagine-se dentro de um trem. É fim de tarde e o sol baixa por detrás das montanhas mágicas onde as plantas são carnívoras e nenhum homem jamais ousou pisar, você está em uma estação onde os carregadores de malas são forjados com massa de modelar e usam gravatas de vidro, como cristal.

É tudo muito mágico, tudo muito astral, você está eufórico, caminha por entre as pessoas que seguem apressadamente, vindas de todos os lugares e indo para onde quer que a imaginação possa levá-las e de repente alguém está lá, você pode sentir, mas não sabe explicar, o coração bate em ritmo de música, os olhos piscam, o tempo parece parar e alguém está lá, ágüem está na catraca. É a menina com os olhos de caleidoscópio. Você fecha os olhos e levanta vôo. Flutua ao sabor dos ventos e agora sim a encontra.

É Lucy e ela está no céu com diamantes.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A Fábula

A Fábula

Era uma vez um planeta mecânico. Existiam árvores e animais selvagens, cidades inteiras banhadas por um grande oceano de águas calmas e claras. A vida parecia tão pacata que fugia a normalidade, certamente não para os habitantes daquele peculiar mundo, tão acostumados ao trivial do dia a dia, mas para mim, que observava tudo de fora, como um mero espectador do acaso.

As pessoas iam e vinham com serenas expressões estampadas em seus rostos bronzeados pelo sol equatorial de verão. Havia construções que variavam, hora com uma arquitetura simples, porém sombrias, hora construídas como verdadeiros frutos de uma peculiar megalomania e estranha obsessão por grandeza, arranha-céus que se perdiam nas nuvens e alcançavam alturas que os pássaros não ousavam atingir.

A fauna e a flora se confundiam por entre uma grande gama de espécies naturais que conviviam harmonicamente, como uma simples canção de criança, escrita pelas mãos de um experiente compositor. Várias eram as espécies de animais que naquele mundo habitavam, algumas ainda conservavam seu lado selvagem, outras tantas, já bem adaptadas ao ambiente humano, estranhamente regulado por uma força superior que parecia manter tudo na mais perfeita ordem, devidamente organizado de maneira impecável.

O dia a dia daquela população formada por semi-robôs era formado por certezas imutáveis, sabia-se de cor e conheciam tudo a respeito de suas origens, de onde vieram, o que eram e onde aquilo tudo iria terminar. Ali, pasmem, adivinhar o futuro não era coisa de mágico, era um hábito, burocrático e sempre igual, na verdade, era mais que isso, era um profissão ensinada nas universidades do saber, como uma simples regra de três.

Naquele estranho mundo, nada fugia a regra, havia nome para tudo e para tudo havia uma explicação, até o pôr do Sol sobre o Mar era um gráfico, onde todos os habitantes podiam enxergar e cultuar, mas ao contrário do que se espera, nenhuma emoção sentiam, eles não viam aquilo como um espetáculo natural, simplesmente decifravam números de uma equação da natureza.

E por falar em emoções, explicá-las não era nada ridículo, havia críticos com seus métodos práticos desenvolvidos com o passar dos tempos e com um certo desdém.

Na verdade, emoções não eram coisas para as quais se prestava muita atenção por ali, não era dado lá muito valor a essas coisas imateriais que deveriam, mas que, na verdade, não se podia sentir. Na realidade, eles não pareciam se importar em não sentir, até por que já estavam cansados de saber o motivo e a razão dos sentimentos.

Não preciso nem mencionar como eles se comportavam acerca dos sentimentos. Amor, ódio, carinho e tristeza, era tudo a mesma coisa, reduzidos a quase nada, fruto de um passado distante, quase esquecido em detrimento das coisas importantes da vida.

Cá pra nós, era tudo muito chato, era tudo tão sensato e até difícil de agüentar, imaginem vocês, saber de cor como tudo começou e como iria terminar, simplesmente, não tinha a menor graça.

Mas de uma hora pra outra, tudo que era tão sólido começou a desabar no final de um século, tudo começou quando alguém, cansado de toda aquela mesmice, primeiramente taxado pejorativamente de sonhador, começou a questionar toda aquela lógica. Queria sentir as emoções à flor da pele, desconhecer o início e ignorar o fim. Logo começaram a aparecer seguidores vindos dos quatro cantos daquele atípico mundo, todos buscavam mais cores, mais amor, muito mais do que eles, pra dizer a verdade, não tinham a exata noção do que poderia ser.

Em meio aquela estranha novidade, que rapidamente ficou conhecida como a revolução das cores, ainda existiam os conservadores que esbravejavam em busca da retomada da normalidade, diziam eles: Queremos lógica! Queremos lógica!

Os adivinhadores de futuro nada podiam fazer, apenas traçavam gráficos mostrando um otimista quadro nas mudanças globais, projetavam que o fim da crise estava próximo e que a normalidade voltaria no final do primeiro trimestre daquele nefasto ano, mas na realidade, suas matemáticas estavam erradas, era a revolução das cores trazendo raios de sol em plena madrugada de sábado, era tudo muito radical.

E assim se fez, como em um piscar de olhos, a lógica mundial mudou radicalmente. As pessoas cheias de dúvidas, já não tinham tanta certeza de suas outrora indubitáveis certezas. O pôr do sol virou espetáculo, podia-se ver no meio das ruas, crianças apontando para as nuvens que passaram a moldurar figuras infantis ainda cortadas pelos arranha-céus, agora já não tão cinzas.

As pessoas, indo e vindo, cruzavam umas pelas outras já não com tanta indiferença, pareciam mais amistosas e amigáveis, elas não tinham mais certeza de suas origens e do que viria pela frente, mas isso, nem de longe, parecia ser um problema. O mundo não era mais aquela equação matemática, onde tudo se encaixava e podia-se conceituar, agora existia luz negra e magia por toda parte. A música arrancava lagrimas, a arte representava a vida, espetáculos despertavam arrepios, o medo, aquele friozinho na barriga era emoção nova que enchia de vida e os corações dos habitantes daquele novo mundo.

Agora os poetas começavam suas obras com a frase: Era uma vez, um planeta humano...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Vida, vida completa

Vida, vida louca. Vida leve, vida me leve. Já que eu não posso, vem me buscar e me deixar a toa, na boa, nas águas de março, que se estende a abril abrindo o outono.

Vida, vida louca, leve, solta, boba, quase um segundo, por pouco louca, mas ainda suficientemente normal e estranhamente astral.

Vida, vida leve. Leve a dor para que o amor floresça, cresça, brote, desabroche como rosa, como flor de cor clara, que não para e encanta e canta.

Vida, vida pouca. Cheia de medo, cheia de tristeza, que se vá, para lá e para longe, distante de mim, que vim e venci e assim se foi, passou, passou.

Vida, vida estranha. Sem explicação como canção sem refrão que toca e canta a historia do certo, do errado ou do certo alguém, vida que vai e vem, que vai e passa, repassa, que laça e amarra e assim acaba, mas sem explicar. Então, que se vá.

Vida, vida linda. Brisa do mar, luz do luar, balanço das árvores, canto dos mares, belo, singelo beija-flor namorador. Beijo de namorada, vontade afagada, lírios, brilhos, estrelas cadentes, escolas circenses.

Vida, vida toda. De cabo a rabo, não mais que o suficiente, não mais que derrepente, vida feliz, assim espero chegar do lado de lá, pronto pra recomeçar.

Vida, vida completa. Repleta de vida, vivida.