quinta-feira, 17 de novembro de 2011

E lá esta ele apenas um passo fora do alcance de seu olhar.


E lá esta ele apenas um passo fora do alcance de seu olhar.

Escondido pela penumbra inebriante da noite que, misturado com o gosto amargo de mais um gole de algum Rum barato, traz a tona uma indescritível sensação de invencibilidade e assim, ele parece ser invisível, e é.
Invisível aos olhos do que é certo ou, se não certo, talvez justo. Invisível aos olhos do mundo de quem realmente o ama. Invisível aos olhos de seus sentimentos mais puros, sempre esquecidos e empurrados para debaixo do tapete velho de seus desejos e lá esta ele, invisível.

Invisível mas não aos olhos da noite, não aos olhos daqueles que vem e vão mergulhados no oceano de prazeres, buscando. Invisível mas não aos olhos da carne, não aos olhos daquilo que pulsa e lhe impulsiona para lá. Para aquele universo que insiste em lhe pegar pela mão e puxar para perto de si, para junto de onde as sensações ganham contornos coloridos, mesmo que só por uma noite, como em um caleidoscópio sem lógica. Invisível para o que e quem realmente importa. E lá esta ele.
Claro que seus desejos são geralmente mal compreendidos. Mas por quem?
Enquanto esta lá, sabe que a imperceptível máscara que lhe cobre o rosto o protege do inevitável da verdade, e procura não saber e não acreditar que o inevitável da verdade um dia vem a tona, como em um filme sem final feliz.
E veio.
Veio por que vem mesmo, é inevitável. A verdade, como ferramenta do destino, traz a conta da vida como quem empurra o dedo na ferida aberta do coração e da razão, e dói. Tanto em um, como no outro. Em um, pelo sentimento interrompido que, quando tirado debaixo daquele tapete de desejos, mostrava-se puro e simples, simplesmente como deve ser. E no outro pelo peso incalculável da culpa. Difícil apenas mensurar qual dói mais. 

Não importa.

O que importa é que o polícia do carma, cumprindo fielmente sua função na escala da vida, desnuda a verdade diante dos olhos que não enxergavam. A dor ensina. A culpa acinzentada aos poucos mostra o caminho do justo. O sentimento se eterniza e fica apenas a lembrança do que passou e pensamento em como tudo poderia ser. 

A dúvida vira dádiva da vida que se levou. A dúvida vai (para sempre) guardar um lugarzinho cheio de cores no canto esquerdo do peito. Vai martelar a mente e vai fazer imaginar como seria se a fraqueza não tivesse preenchido aquelas linhas que, anos atrás, ainda estavam em branco e assim ele vai vivendo...

...mas até quando?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

CREEP


CREEP
Oito anos atrás.
Gui, aquele garoto quase tão desengonçado quanto uma folha de papel largada ao vento, esquisito com um peculiar jeito de olhar as coisas ao seu redor, olhava as coisas ao seu redor, sem se dar conta de como as coisas ao seu redor pareciam cada vez mais andar em círculos, sem chegar à lugar nenhum.
Do auge de seus 23 anos de idade e do alto de seu infinito particular, esperava que o estranho mundo que orbitava sua mente se transformasse a cada dia em algo novo, em algo maior, difícil de descrever, cheio de cores que se encontram e parecem dançar as voltas do relógio e de sua mente inebriada pela sensação inebriante que um vinho barato e um cigarro no cinzeiro podem causar, mas nada acontecia.
Gui amava, ou pelo menos, achava que sim. Havia conhecido Bela, uma bela garota de cabelos  vermelhos e olhos azuis em um belo dia de outono, com as folhas caindo das árvores, seus cabelos caídos no rosto ao cair da noite, na beira do cáis.
Bela, com suas belas mexas vermelhas, tinha idade suficiente para amar, e amava, ou pelo menos achava que sim. O tempo que eles demoraram para conhecer o peculiar de cada um, cabia no tic-tac apressado do relógio de pulso de Bela e não dava mais do que 7 voltas inteiras e um quarto e, dentro do quarto de hora que se entregaram ao amor, em um quarto de hotel largado, tudo pareceu mágico, surreal e impossível de entender, descrever ou permanecer. Ser para sempre talvez não fosse uma opção, pelo menos, não naquele momento. E o tempo passou.
Oito anos depois.
Gui olhou e desviou, ou pelo menos tentou desviar o olhar, mas foi em vão. Desviara, ou pelo menos havia tentado desviar o olhar para fugir do olhar de Bela, que o olhava e esperava uma reação. Não que Gui precisasse fugir, mas sua timidez não o permitia encarar. Oito anos haviam se passado e o tempo, impiedoso que é, havia tatuado à ferro quente em sua memória a imagem do que se foi e nunca mais voltou.
Bela olhando, esperava e, esperando, cansou de esperar uma reação de Gui, era é vão. Tomou a atitude que esperava do já não tão jovem garoto e aproximou-se. O silêncio ensurdecedor que pairou sobre o local durante aqueles infinitos três segundos foi o suficiente para ruborizar a face do já não tão jovem, porém ainda muito tímido rapaz.
Oito anos haviam se passado e o tempo que todos esses dias podem representar, nem de perto representavam a realidade do que tinha se passado durante aqueles dias, era muito mais uma questão de intensidade do que propriamente de tempo decorrido. As páginas que foram viradas nos calendários da vida, não expressavam a vontade de querer que martelava a cabeça da bela Bela durante todos esses dias que construíram lentamente aqueles anos. Tantas eram as perguntas e indagações. Eram tantos os “porques”, que qualquer “talvez” que pudessem brotar não seria suficiente para justificar, nem muito menos, para explicar.
Bela aproximou-se de Gui, tão bela quanto antes, mas antes que pudesse dizer alguma coisa foi interrompida pelo olhar penetrante do garoto que parecia querer dizer: “Quando você esteve aqui antes, eu não pude te olhar nos olhos.” Não era culpa apenas daquela desengonçada falta de malícia do garoto, era muito mais que isso. Enquanto seu corpo falava da vontade de estar com ela com todas as letras possíveis de serem ditas ou escritas pelo corpo humano, sua coragem escondida no fundo do seu âmago, por detrás de uma montanha intransponível de timidez, impediu que ele se manifestasse. Lastimável.
O garoto sabia e parecia querer dizer, mas não era capaz. Na sua mente ele escutava como se tivesse falando para ela: “você é como um anjo, sua pele me faz chorar”, mas ele não conseguia falar. Não era apenas como se ela flutuasse como uma pena em um mundo bonito, onde os ventos que movem os moinhos são os mesmos que remexem os belos cabelos ruivos de Bela. Ele queria ser especial, pois ela era tão especial.
Mas na verdade, o que o garoto tinha absoluta certeza era exatamente as palavras que ele repetia para si mesmo durante todos esses anos, oito anos para ser mais exato. Ele sabia que era estranho, sabia que era esquisito e não tinha absoluta certeza do que estava fazendo naquele lugar, na verdade, de absoluta, só a certeza de que ele não pertencia àquele lugar. Ele pensava e, pensando, repetia para si mesmo: Eu sou estranho e esquisito. O que diabos estou fazendo aqui? Eu não pertenço à esse lugar!
Mas agora, a ainda mais bela Bela estava ali, parada diante dele e esperando. Mas o que dizer?
Alguem pode ajudar?

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Religare

Tem um cara, Bernardo Guimarães é o nome dele. Não sei de onde veio nem pra onde vai, só sei que para esse texto dele, tiraria o chapéu, se de chapéu estivesse.

"A intenção é de continuar falando da nova religião, desta vez com os mandamentos, fundamentos, princípios, como queiram.


1. Não há proibições de qualquer natureza, tipo não pode dançar, cortar o cabelo, transar antes do casamento, usar camisinha, fumar, beber, ter filhos sem casar, essas coisas- e aqui respondo às primeiras perguntas que me fizeram no texto anterior. Nada é proibido a não ser falta de caráter! Promiscuidade também está por fora. Pode tudo e o limite é a responsabilidade consigo e com o outro. Pode homem com homem, mulher com mulher e homem com mulher. Com animal, não deve, mas os meninos criados no interior não queimarão no mármore do inferno se comerem uma jeguinha. Drogas, pode, desde que não exagere e se tiver tendência ao uso abusivo ( traço familiar), cuidado! e se cair, tem de pedir ajuda e todos tem de ajudar.


2. Não há pecado, a não ser os brabos, tipo roubar, estuprar, matar, corromper. Os leves não serão considerados, por exemplo: xingar, bater uma, brigar com irmãos, desejar o próximo.


3. Não há rituais, orações, compromissos de frequentar um templo, aliás, não há templo. Os encontros devem acontecer por livre desejo de tantos quantos quiserem se encontrar, onde quiserem e pelo tempo que desejarem. Nada de forçar a barra; nem me convidem pra encontros de formatura! Vou não, quero não, posso não...


4. O meio ambiente será respeitado. Intervenções serão permitidas desde que o fim justifique os meios. Pode fazer Usina Hidrelétrica, esse negócio de viver sem energia, tá por fora. Os animais só podem ser abatidos se criados para esse fim ( galinha, peixe, porco, boi). Animal silvestre, nunca!


5. Não há sacerdotes e ficaremos livres de títulos como bispa, irmão, cardeal, xamã, médium, etc. Tambem estão fora de tempo chamar de companheiro e camarada. Amigo, pode e é suficiente.


6. Se precisarmos de um símbolo, o de Paz e Amor dos '60 dá pro gasto. Ainda gosto muito dele"


Ah, ia esquecendo. O link pra quem quiser conferir de perto é esse:
http://xeudizer.blogspot.com/

Palavras?




Palavras?
Suspiros. Sentimentos e sentimentos aflorados, à flor da pele. Tudo é intensidade, pulsa! Faz vibrar, vira e revira os olhos procurando não achar. Nada se explica e tudo se entende, é automático.
Ela não é apenas mais uma mulher e essa não é apenas mais uma história de amor. São várias historias, pequenas historias que se somam e se juntam formando um relicário imenso desse amor. Amor que dura, amor que tem durado. Até quando? Não se sabe e ninguém quer saber. Não faz nenhuma diferença. O futuro não se vê em cartas ou búzios. O futuro não esta escrito na palma da mão direita. O futuro está diante dos seus olhos, sempre um segundo à frente, constantemente.
Ele não é apenas mais um homem e essa não é apenas mais uma história de amor. São varias historias escritas e compiladas, somadas e embrulhadas em um pacote colorido selado com lágrimas, algumas de emoção, outras de gratidão e poucas de dor. A dor é inevitável. O amor decepciona não raras vezes, mas o amor também é capaz de fazer esquecer, ele transpõem e transborda lavando e levando embora o universo cinza da decepção.
Ela e ele não são apenas um casal e essa não é apenas mais uma história de amor. Até porque cada historia de amor escrita, desde as primeiras historias de amor vividas, é especial. Cada uma tem um ingrediente único, peculiar a cada romance e que desenha no céu do infinito os traços de varias emoções, e à cores.
Juntos, o tempo parece voar. Separados o tempo parece desmentir o poeta e para. O inquietante da distância é o que torna inquietantemente saboroso estar junto e estar junto significa formar um só.
Para sempre?
Quem sabe.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Eu devia estar dormindo


Eu devia estar dormindo

Eu devia estar dormindo. Olho pela janela e o silêncio tranqüilo da noite acusa que o mundo dorme. Janelas entreabertas deixam escapar fiapos de histórias de seus habitantes, ruídos de conversas e traços de sonhos inacabados e meio escritos em meio ao universo de cores, mesmo que em preto em branco. As ruas desertas parecem me convidar a sair vagando pela penumbra procurando achar, seja lá o que for. Seja o desconhecido que desfila diante dos olhos ou o bom e velho paradoxo de emoções que não se explica, que não se pode ver, só sentir. Que levanta o fiapo de cabelo, que esfria a espinha, que arranca lágrimas, que isso, que aquilo e nada mais importa.
Eu devia estar dormindo. Tento ouvir o silêncio, mas é em vão. Grito! Mas tudo que escuto são algumas doces vozes:  "calar a boca!!!" cheias de amor, por que eu prefiro ver assim. O amor, dizem, está subestimado. Aos céticos olhos cientistas, nada que uma caixa de chocolate não possa resolver. O bombardeio hormonal no cérebro é o mesmo, a sensação é a mesma, mas cadê os suspiros? Onde estão as lágrimas? Quantas histórias o chocolate já escreveu? Quantos Romeus e quantas Julietas? Quantos homicídios pacionais? Quantas intrigas e planos maquiavélicos? O chocolate não tá com nada, no máximo alguns Coelhinhos, e na páscoa! Por isso, devia aproveitar o silêncio da noite e sair em passeata , mesmo que sozinho, pelas ruas semi-desertas. Pelo amor!
Eu devia estar dormindo. Nos braços de Morféu encontraria a viagem oculta em cada sonho e acordaria, com o sol. Lembrando de partes de uma viagem só não tão psicodélica quando comparada à inebriante sensação causada pela explosiva mistura de vinho doce e barriga vazia. Eu podia estar caindo, podia estar voando ou podia estar a assistindo aos Beatles no mágico ano de 1967. Eu podia estar no México, é julho de 1970 e o Carlos Alberto acaba de marcar o quarto gol contra a Itália. Um chutaço,  lindo! Eu podia, mas não estou.
Eu devia estar dormindo. Ao meu redor todos dormem, até o cachorro. Principalmente o cachorro. Pensando bem, que vida tem o cachorro. Não faz nada, nem precisa. Tem casa comida e roupa lavada (Roupa???) e tudo que ele precisa fazer é ter um monte de amor pra dar, e ele tem, sempre. Basta ouvir o barulho fantástico das chaves girando a fechadura e pronto. Lá esta ele com o rabo balançando, pulando feito doido de um lado pro outro, o Chorro só quer atenção. Sim, Chorro é o nome dele, fica mais fácil de lembrar e difícil de confundir, na hora de chamá-lo, basta gritar: Vem Cá, Chorro!!!
Eu devia estar dormindo. As letras no teclado do computador já começam a se misturar. Vejo o “A” e o “S”, antes vizinhos inseparáveis, em uma árdua e melancólica discussão gramatical. O “p”, pê da vida com o “q”, não sabe por que, mas tenta convencer o “v” a vê melhor o que o os irmãos “m” e “n” estão armando. Uma revolução na escrita que não vai deixar espaço nem pra barra de espaço. "Abaixo à pontuação!" Eles gritam. Não mais vírgulas ou pontos, sejam de exclamação, interrogação ou mesmo, pasmem, reticências. Nessa historia toda, só quem não sabe ainda como se posicionar é o “ç”, que ainda não decidiu se é letra ou pontuação. Sem preconceitos! E respeitemos as diferenças.
Eu devia estar dormindo. Definitivamente.
Talvez eu esteja dormindo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

FONTE DA JUVENTUDE

FONTE DA JUVENTUDE

Impossível ser para sempre jovem. E não falo, procuro ou espero ser e continuar jovem para sempre por questões estéticas, minha preocupação é com espírito. A alma do jovem lhe permite buscar, arriscar e se jogar de cabeça no infinito dos sonhos e na escuridão do desconhecido sem medo do que ou de quem vai encontrar.
O astral do jovem na sua forma de ver o mundo, a despretensão com que ele escolhe a porta número três, reflete sua coragem e explica perfeitamente por que não a porta número dois ou número um, tanto faz, todas as portas tem, do lado de lá o desconhecido e a excitação, ingredientes que, quando misturados nas veias pulsantes do jovem, bombardeiam seu neófito coração com um sentimento de quero mais fulminante.
Para o Jovem tudo é aventura e é por isso que ele vai de peito aberto com a coragem no olhar e diz: Pode vir! Mas o que? Tanto faz. Pode vir e que sejam muito bem vindos. Seja bem vinda a vida, as lágrimas, de dor ou de amor, o amargo, ou o doce. Pode vir à cores ou em preto em branco (como o gol do Pelé em 58), pode vir a galope ou a passos de tartaruga, que venha em silêncio, berrando ou, simplesmente, cantando “o poeta não morreu, foi ao inferno e voltou...” Podem vir os jardins do Éden, o cristo, a torre, a muralha ou a estátua, a liberdade do jovem mixada com sua sede do novo e a ânsia do desconhecido lhe coloca ali, de braços e peito abertos para dizer, podem vir. E se vier, que venha, pois o Jovem quer sentir, ele quer sensações, pontos finais não são, nem de perto, suficientes, ele quer reticências, quer frio na barriga e arrepio na espinha, o sorriso estampado é regra enquanto a seriedade, exceção.
Porém, como um dia profetizou o poeta, o tempo não para. Ele passa e, com ele, leva muito mais que a juventude. O tempo leva a coragem daquele garoto que queria mudar o mundo, mas que agora assiste a tudo de cima do muro, com a cabeça baixa e a sensação amarga de ver o rosto emoldurado pelas rugas que o tempo trouxe e abandonou naquela imagem que o espelho reflete.
Tudo que restam são lembranças. Lembranças que trazem a nostálgica sensação da finitude da alma e da escassez dos dias. Aquela mente que, um dia, imaginou um mundo cheio de cor, agora se arrepia por vê-lo coberto de dor e sente que o fim se aproxima, impiedosamente, coberto com uma capa preta, a foice na mão e um olhar maligno com um sorriso sarcástico de canto de boca. E não adianta espernear.
A solução?
Ser jovem pra sempre.
Como?
Olhando pra dentro de si e buscando a fonte da juventude que tem dentro de cada coração que se amargura e de cada alma que se inquieta presa dentro daquele corpo que parece desistir e que reza por dias melhores.
Até aceito que a imagem que o espelho reflita transpareça os anos que se passaram, mas a imagem que só o espírito enxerga é que vai dizer quem você é, realmente.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Oi, NOMIDADE?

Oi. Nomidade?!
Era assim que tudo começava.
Éramos jovens. Neófitos aspirantes a amantes latinos que imaginávamos que ali, naquela ferramenta de paquera virtual, tudo era possível. Tenho certeza que a maioria dos que hoje fazem parte da geração que cresceram assistindo show da Xuxa, choraram com a morte dos Mamonas Assassinas e tem vagas lembranças do Galvão gritando: É Teeeeetra! É Teeeetra!!! Na final da copa de 94, desperdiçou na adolescência, horas e horas de seus não tão preciosos tempos, naquelas salas de bate papo do MIRC.
Os diferentes canais: #Fortaleza, #Praia de Iracema, #PF, e por aí em diante, eram pontos de encontro de jovens que buscavam novas aventuras. Buscavam novas amizades e acima de tudo, buscavam novas paqueras. Sair a noite nas baladas estilo Matinês, já não era tão interessante assim, a moda era o MIRC. Ficar a noite toda batendo papo com pessoas completamente desconhecidas tinha um “que” de fetichismo que causava uma ebulição de sentimentos e fazia os hormônios saltarem dentro das veias.
Primeiro buscava-se descobrir as características básicas do colega na janela ao lado. Na tentativa apressada de se descobrir os nomes e as idades das pessoas, rapidamente criou-se a mais popular gíria Mircaniana: NOMIDADE. Uma abreviação óbvia que algum genial garoto no auge dos seus 14 anos criou, mas que nunca recebeu os créditos por isso. Depois a conversa ia se desenrolando impulsionada pelas características em comum. Os lugares que freqüentavam, as escolas que estudavam, os bairros que moravam os amigos que conheciam e as musicas que ouviam. Tudo tinha uma dinâmica, perguntar se o interlocutor ou, na verdade, o “interchateador” tinha foto já no começo da conversa, feria uma espécie de ética criada entre aqueles fiéis usuários da ferramenta virtual.
Durante as férias escolares, amigos se juntavam na casa de algum deles para passar a madrugada em animadas conversas com outros grupos de garotas em algum ponto da cidade, todos esperando que alguém saísse dali com um número de telefone ou um IRContro marcado.
A questão da foto era uma odisséia particular, pois o MIRC “bombava” em uma época em que câmeras fotográficas digitais eram protótipos científicos das grandes companhias tecnológicas. O máximo que se podia fazer era escolher sua melhor fotografia e torcer para que algum amigo tivesse um Scanner, para que a foto pudesse ser digitalizada e enviada nas animadas conversas. Não eram raras as vezes em que a pessoa com quem se falava não tinha foto e aí, sérios problemas poderiam aparecer. A questão da aparência contava, e contava muito quando se tinha 15 anos de idade.
Quantas foram as vezes em que as pessoas se arriscaram em marcar IRContros acreditando unicamente nas características descritas pela outra pessoa por trás daquelas letras no monitor do seu computador.
1,60m, 50kg, olhos verdes, loirinha do cabelo cacheado. Era inevitável, a imaginação impulsionada por tantos hormônios daqueles jovens se apressava em desenhar em suas mentes uma princesa que, na maioria das vezes, acabava se transformando em sapo.
As 17h do sábado, do lado do telefone público, em frente ao Duda’s Burguer no Iguatemi, estaria de calça jeans e blusa amarela a Nannyzinha_16 e sua amiga, Bruninha_BB. Você, o PaPaLeGuAs, e seu amigo OdeioGenteQueUsaNickMtoGrand estariam de Bermuda da Pena, All Star de cano longo, blusa dos Guns n’Roses e uma mochila da Company. Pronto, o IRContro estava armado, as cartas estavam na mesa e os dados do destino estavam lançados, dali para frente, a vida era um jogo no qual você jogava para ganhar. Baseado unicamente em quatro intermináveis noites de bate papo virtual e pouco mais de duas horas de conversa pelo telefone, onde cada um estava pendurado em uma extensão da linha em que todos falavam ao mesmo tempo e ninguém entendia nada, lá se foram os dois jovens cheios de coragem e muita esperança de voltar pra casa com uns beijinhos roubados, no estacionamento do shopping.
- Oi, Você é a Nannyzinha_16?
-Não, sou a Bruninha. Nannyzinha é ela, dizia apontando para a amiga a loirinha que não era nem de perto a deusa imaginada.
Mas não tinha problema. O encanto estava no ar. Aquelas longas horas de excitação virtual se transformavam ali, em uma conversa desajeitada que aos poucos se tornava em algo difícil de explicar, mas que com certeza iria fazer o maior sucesso na segunda feira, na roda de amigos no recreio do colégio. Contar aos colegas a aventura que começou no computador com o famoso NOMIDADE e terminou atrás da escada rolante do Iguatemi em um amasso que não passava de dois ou três beijos roubados, era o atestado de campeão para um garoto daqueles tempos.
O MIRC funcionou durante anos, até que o inevitável tsunami tecnológico o deixou renegado às nossas memórias. Aquelas inocentes conversas, aqueles primeiros passos na vida a dois, aqueles eufóricos mergulhos no imenso oceano de paixões, ficaram marcados na lembrança de cada um daqueles jovens que, no meio do desconhecido, traçaram suas diferentes histórias que hoje são contadas em mesas de bar com um ar nostálgico no olhar e a certeza no coração de que tudo valeu demais a pena. Pena que acabou!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Tempo

Tempo


Nada faz sentido e, ao mesmo tempo, tudo faz tanto sentido que espanta. De fato seria sem graça saber como tudo terminaria antes do fim. Onde ficaria a emoção da conquista, o pesar da decepção, o sabor da vitoria e o dissabor das derrotas? Como conheceríamos o que é uma coisa sem que a outra de tempos em tempos passe desfilando diante de nossos sentidos. É nesse mundo de antagonismos que experimentamos e somos experimentados a todo momento.

Talvez sejam normais dias assim. Dias em que acordamos e olhamos para trás para perceber que o tempo passou maquiavelicamente, deixando e trazendo muito mais do que cada um de nós esperava. O tempo traz, e o faz com um sorriso sádico de canto de boca, cabelos brancos, dores nas costas, uma visão que agora falha ao tentarmos ler aquelas palavrinhas minúsculas da legenda de algum filme ucraniano que nem você mesmo sabe por que foi assistir. Traz a problemática diária da vida pós-pós-adolecência e, o que é o pior, traz a certeza indubitável de que há um fim e que ele se aproxima.

O tempo (maldito tempo) traz, mas também leva com ele as dores dos corações partidos e a saudade dos que se depararam com o fim antes de nós. Leva aquela inconseqüência neófita que só a juventude é capaz de nos mostrar, que nos fazia embarcar de olhos fechados e braços abertos em qualquer aventura em busca de qualquer pitada de adrenalina que a vida pudesse nos oferecer.

O tempo (bendito tempo) mostra que o mundo é muito maior do que nossos olhos podem ver e nossas mãos podem alcançar. Ele ensina que viver, não é viver tentando dominar nossos instintos e, dominar nossos instintos, não é necessariamente uma maneira muito boa de se viver.

O tempo é senhor e senhora que devem ser respeitados simplesmente pelos cabelos brancos e a serenidade no olhar que ostentam. O tempo é professor, é pai e é mãe. Por vezes, o tempo é inimigo mortal para, logo depois, abraçar-lhe fraternalmente te guiando pelo vale das desilusões em busca do horizonte de desejos da aurora da liberdade.

Houve quem dissesse que o tempo é espaço, simplificado em fórmulas matemáticas e impresso em folhas brancas, publicado em anais acadêmicos e estudado em salas de aulas. Malditos burocratas. Houve ainda quem poetizasse e cantasse o tempo. Uns tentaram pintá-lo à óleo e outros o procuram até hoje no universo infinito de estrelas, cadentes ou não, com simples lunetas ou sofisticados telescópios. Tudo foi em vão, por que o tempo, o tempo não pára.

Há aqueles que, como eu, tentam entendê-lo. Mas descrever o tempo, parece impossível. Não por que “ele” seja complicado demais pra entender, ou por haver detalhes de menos para conceituá-lo, simplesmente por que o tempo traz consigo uma bagagem de conjunturas para as quais a humanidade ainda não esta preparada para traduzir. Ainda não inventamos palavras capazes de descrever o tempo nem temos olhos para enxergar o que o “ele” representa.

Então, continuaremos tentando entender o tempo e quebrando a cara na esperança de ver chegar o tempo em que o tempo mostrará exatamente quem ele é, para que, assim, não percamos todo nosso tempo, tentando entender o que é o tempo. Quando esse dia chegar, teremos todo o tempo do mundo para viver em paz.

Enquanto isso, que tal dar tempo ao tempo?

quarta-feira, 2 de março de 2011

Estamos condenados à liberdade

Estamos condenados à liberdade. Por mais paradoxal que isso possa parecer e soar, vamos parar e analisar e, parando e analisando, teremos que concordar e aí, em concordando, teremos que encarar e aceitar a dura realidade da prisão que é sermos livres.
O ser humano vaga pelo mundo condenado a viver e sentir. Condenado a ter prazer e a gostar do que lhe é apresentado. São tantas cores, tantas músicas, sabores e valores. Para onde quer que se vire, lá está alguém te oferecendo seja lá o que for. Basta ligar a TV e as propagandas comerciais lhe apresentam um mundo infinito de oportunidades: o banco que é “feito pra você”, a cerveja que é a “boa” ou que é um “cervejão, as sandálias que são as “originais”. Pra você que é louco por carro, temos o posto de gasolina certo, como se gasolina não fosse tudo igual e, todos os dentistas já comprovaram, aquele creme dental é o mais indicado para você e toda sua família, dentes brancos e hálito puro. É tudo que precisamos, sem dúvidas.
E pra quem já achava que viver é demais, o problema não pára por aí. Abram seus e-mails e preparem-se, vocês estão prestes a entrar em um mundo de doces delicias, mas com o prazo de validade expirado. São fotos das mais belas modelos nas mais diversas posições degradantes com os mais diversos títulos e abreviações. Além das belas, tem as feras. Arquivos com vídeos incríveis repassados para toda uma rede social de amigos virtuais que nunca se viram nem se encontraram no mundo real e, caso se isso acontecesse, aposto que fingiriam que não se conhecem. Notícias de golpes armados pelas quadrilhas de sua cidade e conselhos de como se defender. As mais belas paisagens do mundo também estão lá, a dois cliques de seus olhos e sentidos e, quando achávamos que isso era tudo, doce ilusão, pois até mesmo o tamanho do seu pênis entrou na discussão.
Não sei em que época da história humana viver passou a ser um martírio social. Individualmente não se pode mais sofrer. Todos acham uma aberração e te obrigam a se entupir de Prozac. Individualmente não se pode mais querer viver, encarar o mundo sozinho de uma esquina de sentimentos qualquer ainda não virou crime, mas é anti-ético. As pessoas irão lhe apontar dedos e dizer que você é louco ou que está bebendo, e qualquer coisa que você dissesse, seria desmentido, vão falar que você usa drogas e diz coisas sem sentido. O mundo social priva as pessoas de serem individuais, de se acompanharem delas mesmas e, o que é pior, as obriga a ter prazer. Todos devem praticar um esporte e ir para as baladas mais “loucas”. Consumir não é mais uma necessidade, mas uma obrigação. A moda virou o moinho do mundo.
As boas leituras, quase esquecidas e renegadas a uma minoria renegada pela sociedade, criam poeira nas prateleiras do mundo. As boas músicas e os bons filmes, ouvi-los e assisti-los é quase um exercício clandestino de um membro de um clã perseguido pelo poder posto. Tentar apresentar essa qualidade de arte para o senso comum seria como jogar pérolas aos porcos, eles não saberiam o que fazer.
Assim, tudo o que nos resta é tentar seguir a lógica do filme já começado, aquele que você chega na sala, senta no sofá, liga a TV e percebe que o mocinho já conheceu a mocinha e estão fugindo, sabe-se lá de que ou de quem. Então você se encosta confortavelmente, pega a pipoca e tenta imaginar o começo de tudo aquilo, mas com uma certeza: O final será feliz. Será?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A chantagem que há em cada olhar.

A chantagem que há em cada olhar.

Quando eu era nada mais do que um minúsculo, prematuro e inquieto neném, conta minha mãe, ficava com os olhos grandes e esbugalhados encarando encantado o vai-e-vem das pessoas, tentando entender aquele universo de cores desconhecidas e desconectas que desfilavam diante dos meus neófitos olhos. Era observação pura.
Daí eu cresci, lógico. Cresci e continuei observando. Não diria que todo, mas grande parte do aprendizado se deu pelo método neo-kantiano de observação e análise do mundo externo com base em experiências nunca evidenciadas nem vivenciadas. Logicamente tudo isso transformou minha mente em um mix de idéias malucas sobrepostas umas sobre as outras que se baseiam, unicamente, em uma lógica surreal, anormal-positivista-moderna, ou algo do gênero.
A verdade a ver navios é que de observações em observações - não necessariamente nessa mesma ordem – conclui que o olhar é uma chantagem. Sim, pasmem! Chantagem barata.
Basta que vocês analisem e, ao analisar, haverão de concordar comigo. É tão simples quanto acreditar que no infinito as paralelas se encontrarão ou que, um dia, viajaremos no tempo e, quando isso acontecer, duro mesmo vai ser decidir qual a sua utilidade. Mas isso é outro assunto.
Então, voltando às minhas observações, discutamos minha mais nova descoberta: A chantagem que há em cada olhar.
O ser humano, senhor de suas vontades, busca sempre a auto-afirmação diante de seus pares. Na tentativa de tornar-se independente, acaba se apegando às opiniões alheias em busca de uma aprovação, seja lá para o que for. Então, quando nos aproximamos de alguém para contar-lhe uma determinada história ou um acontecimento qualquer do dia a dia, fazemos fitando seu olhar e, de acordo com suas expressões, somos capazes de mudar drasticamente o rumo dos acontecimentos. Muitas vezes, chantageados por um olhar fumegante de reprovação, uma simples falta ao trabalho por motivo de saúde mata sua sogra.
“- Dr. Chefe, (você fala com a voz trêmula) desculpa minha falta de ontem, mas é por que fui ao hospital fazer um exame e (olhar de desaprovação do chefe), é, huuum, pois é, (ai meu Deus, desespero!) minha sogra morreu. Tragédia.
Expressões faciais lideradas pelo olhar são poderosas ferramentas de persuasão e, saber fazer bom uso delas, pode mudar o rumo da humanidade.
Um dia, um jovem que sonhava em tornar-se arquiteto saiu da casa de seus pais no interior da Áustria e, com um olhar penetrante e um discurso que transbordava energia, liderou a Alemanha nazista na direção da segunda grande guerra.
Relatos dão conta de que até mesmo Jay C., o Cristo, fazia uso desse eficiente subterfúgio em suas andanças pela Galileia, espalhando a mensagem do Pai maior. Apóstolos que, apesar de renegados pela história não deixaram de ser jogados aos leões, descrevem em algumas passagens de seus esquecidos evangelhos, um estranho olhar poderoso e penetrante que acompanhava o Messias em seus discursos. Há quem diga que o sermão da montanha, obra mais Pop daquele jovem promissor que, anos mais tarde, seria considerado “o salvador”, foi embalado por uma oratória recheada de clássicas técnicas de convencimento barato. Os jargões foram omitidos nas transcrições. Marketing puro!
O fato é que de olhar em olhar, vejo um mundo ávido e sedento de auto-afirmação, em que seus hóspedes transitam livremente sem dar muita importância às importantes coisas e se importando demais com coisas banais. Mas um dia, quem sabe, a gente chega lá.
Aonde? Aí eu já não sei.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Deixa a arte pulsar...

Deixa a arte pulsar...

Deixa a arte pulsar, ela é assim mesmo. Te pega de sopetão, desprevenido e, quando você menos espera, está inspirado e criando. Seja lá o que for.
Acho que é questão de um talento inato e inerente a cada um desses quase maravilhosos seres humanos que habitam de maneira pouco ortodoxa e um tanto desajeitada esse mundão que apelidaram carinhosamente de Terra.
Então, uns sentam-se em suas camas desarrumadas, na solidão de seus quartos, com um violão nas mãos e deslizando os dedos pelas cordas montam os acordes de maneira a encantar ao cantar suas novas canções. Outros em seus computadores ou em antigas máquinas de datilografar, para os mais saudosistas, põem-se a criar fantasiosas histórias, dramas do dia a dia ou épicos de anos dourados da passagem humana pela vida. Há também os que se ocupam pintando quadros com imagens surreais ou não e os que se distraem com a arte inanimada, descolorida e simpática ao obscuro lado escuro da lua.
De uma maneira ou de outra, eles estão ali simplesmente criando a arte que vai enfeitar o mundo pelos próximos anos. Algumas dessas criações irão se perder no tempo, serão esquecidas nos corredores da humanidade ou nos quartos sujos da vida. Outras podem até ser vistas por um numero significativo de amantes e apreciadores do seu estilo artístico, mas serão substituídas pelas inovações tecnológicas que o progresso trará, inevitavelmente. Algumas, e essas sem nenhuma convincente explicação, vão se perpetuar no tempo e se tornarão ícones de um tempo e de uma geração. Seus autores serão elevados a categorias de gênios ou deuses e essas mesmas obras, que hoje estão a ser criadas, custarão exorbitantes quantias do vil metal que move e impulsiona o moinho da economia mundial, como se a arte tivesse algum preço..
Tudo culpa da inspiração que, na verdade minha gente, é quem move o mundo. É o combustível da arte que sacode multidões de espectadores, que buscam matar sua sede de cores ou sua fome de palavras, que com seus desejos entorpecidos pela inebriante sensação que só a arte pode causar no ser humano, abraçam o mundo e correm em direção ao desconhecido sem o temor de se depararem com o real.
Não, o real não! O real está desenhado em tons cinzas e eles querem as cores. O vermelho da paixão, a luz do dia de sol e da aurora dos novos tempos. A trilha sonora de suas vidas embalam o universo de paixões e os acordes tocam e descrevem historias ainda não escritas, ainda não narradas e ainda não vividas. Tudo são cores e tudo pulsa. A excitação e falta de ar é adrenalina pura nessa historia que, apesar de ainda não ter final, sabe-se que vai ser um final feliz. Certeza!
E de qualquer forma, agora, tudo que eles querem são reticências, no lugar dos pontos finais...