domingo, 20 de fevereiro de 2011

A chantagem que há em cada olhar.

A chantagem que há em cada olhar.

Quando eu era nada mais do que um minúsculo, prematuro e inquieto neném, conta minha mãe, ficava com os olhos grandes e esbugalhados encarando encantado o vai-e-vem das pessoas, tentando entender aquele universo de cores desconhecidas e desconectas que desfilavam diante dos meus neófitos olhos. Era observação pura.
Daí eu cresci, lógico. Cresci e continuei observando. Não diria que todo, mas grande parte do aprendizado se deu pelo método neo-kantiano de observação e análise do mundo externo com base em experiências nunca evidenciadas nem vivenciadas. Logicamente tudo isso transformou minha mente em um mix de idéias malucas sobrepostas umas sobre as outras que se baseiam, unicamente, em uma lógica surreal, anormal-positivista-moderna, ou algo do gênero.
A verdade a ver navios é que de observações em observações - não necessariamente nessa mesma ordem – conclui que o olhar é uma chantagem. Sim, pasmem! Chantagem barata.
Basta que vocês analisem e, ao analisar, haverão de concordar comigo. É tão simples quanto acreditar que no infinito as paralelas se encontrarão ou que, um dia, viajaremos no tempo e, quando isso acontecer, duro mesmo vai ser decidir qual a sua utilidade. Mas isso é outro assunto.
Então, voltando às minhas observações, discutamos minha mais nova descoberta: A chantagem que há em cada olhar.
O ser humano, senhor de suas vontades, busca sempre a auto-afirmação diante de seus pares. Na tentativa de tornar-se independente, acaba se apegando às opiniões alheias em busca de uma aprovação, seja lá para o que for. Então, quando nos aproximamos de alguém para contar-lhe uma determinada história ou um acontecimento qualquer do dia a dia, fazemos fitando seu olhar e, de acordo com suas expressões, somos capazes de mudar drasticamente o rumo dos acontecimentos. Muitas vezes, chantageados por um olhar fumegante de reprovação, uma simples falta ao trabalho por motivo de saúde mata sua sogra.
“- Dr. Chefe, (você fala com a voz trêmula) desculpa minha falta de ontem, mas é por que fui ao hospital fazer um exame e (olhar de desaprovação do chefe), é, huuum, pois é, (ai meu Deus, desespero!) minha sogra morreu. Tragédia.
Expressões faciais lideradas pelo olhar são poderosas ferramentas de persuasão e, saber fazer bom uso delas, pode mudar o rumo da humanidade.
Um dia, um jovem que sonhava em tornar-se arquiteto saiu da casa de seus pais no interior da Áustria e, com um olhar penetrante e um discurso que transbordava energia, liderou a Alemanha nazista na direção da segunda grande guerra.
Relatos dão conta de que até mesmo Jay C., o Cristo, fazia uso desse eficiente subterfúgio em suas andanças pela Galileia, espalhando a mensagem do Pai maior. Apóstolos que, apesar de renegados pela história não deixaram de ser jogados aos leões, descrevem em algumas passagens de seus esquecidos evangelhos, um estranho olhar poderoso e penetrante que acompanhava o Messias em seus discursos. Há quem diga que o sermão da montanha, obra mais Pop daquele jovem promissor que, anos mais tarde, seria considerado “o salvador”, foi embalado por uma oratória recheada de clássicas técnicas de convencimento barato. Os jargões foram omitidos nas transcrições. Marketing puro!
O fato é que de olhar em olhar, vejo um mundo ávido e sedento de auto-afirmação, em que seus hóspedes transitam livremente sem dar muita importância às importantes coisas e se importando demais com coisas banais. Mas um dia, quem sabe, a gente chega lá.
Aonde? Aí eu já não sei.