quarta-feira, 13 de abril de 2011

Oi, NOMIDADE?

Oi. Nomidade?!
Era assim que tudo começava.
Éramos jovens. Neófitos aspirantes a amantes latinos que imaginávamos que ali, naquela ferramenta de paquera virtual, tudo era possível. Tenho certeza que a maioria dos que hoje fazem parte da geração que cresceram assistindo show da Xuxa, choraram com a morte dos Mamonas Assassinas e tem vagas lembranças do Galvão gritando: É Teeeeetra! É Teeeetra!!! Na final da copa de 94, desperdiçou na adolescência, horas e horas de seus não tão preciosos tempos, naquelas salas de bate papo do MIRC.
Os diferentes canais: #Fortaleza, #Praia de Iracema, #PF, e por aí em diante, eram pontos de encontro de jovens que buscavam novas aventuras. Buscavam novas amizades e acima de tudo, buscavam novas paqueras. Sair a noite nas baladas estilo Matinês, já não era tão interessante assim, a moda era o MIRC. Ficar a noite toda batendo papo com pessoas completamente desconhecidas tinha um “que” de fetichismo que causava uma ebulição de sentimentos e fazia os hormônios saltarem dentro das veias.
Primeiro buscava-se descobrir as características básicas do colega na janela ao lado. Na tentativa apressada de se descobrir os nomes e as idades das pessoas, rapidamente criou-se a mais popular gíria Mircaniana: NOMIDADE. Uma abreviação óbvia que algum genial garoto no auge dos seus 14 anos criou, mas que nunca recebeu os créditos por isso. Depois a conversa ia se desenrolando impulsionada pelas características em comum. Os lugares que freqüentavam, as escolas que estudavam, os bairros que moravam os amigos que conheciam e as musicas que ouviam. Tudo tinha uma dinâmica, perguntar se o interlocutor ou, na verdade, o “interchateador” tinha foto já no começo da conversa, feria uma espécie de ética criada entre aqueles fiéis usuários da ferramenta virtual.
Durante as férias escolares, amigos se juntavam na casa de algum deles para passar a madrugada em animadas conversas com outros grupos de garotas em algum ponto da cidade, todos esperando que alguém saísse dali com um número de telefone ou um IRContro marcado.
A questão da foto era uma odisséia particular, pois o MIRC “bombava” em uma época em que câmeras fotográficas digitais eram protótipos científicos das grandes companhias tecnológicas. O máximo que se podia fazer era escolher sua melhor fotografia e torcer para que algum amigo tivesse um Scanner, para que a foto pudesse ser digitalizada e enviada nas animadas conversas. Não eram raras as vezes em que a pessoa com quem se falava não tinha foto e aí, sérios problemas poderiam aparecer. A questão da aparência contava, e contava muito quando se tinha 15 anos de idade.
Quantas foram as vezes em que as pessoas se arriscaram em marcar IRContros acreditando unicamente nas características descritas pela outra pessoa por trás daquelas letras no monitor do seu computador.
1,60m, 50kg, olhos verdes, loirinha do cabelo cacheado. Era inevitável, a imaginação impulsionada por tantos hormônios daqueles jovens se apressava em desenhar em suas mentes uma princesa que, na maioria das vezes, acabava se transformando em sapo.
As 17h do sábado, do lado do telefone público, em frente ao Duda’s Burguer no Iguatemi, estaria de calça jeans e blusa amarela a Nannyzinha_16 e sua amiga, Bruninha_BB. Você, o PaPaLeGuAs, e seu amigo OdeioGenteQueUsaNickMtoGrand estariam de Bermuda da Pena, All Star de cano longo, blusa dos Guns n’Roses e uma mochila da Company. Pronto, o IRContro estava armado, as cartas estavam na mesa e os dados do destino estavam lançados, dali para frente, a vida era um jogo no qual você jogava para ganhar. Baseado unicamente em quatro intermináveis noites de bate papo virtual e pouco mais de duas horas de conversa pelo telefone, onde cada um estava pendurado em uma extensão da linha em que todos falavam ao mesmo tempo e ninguém entendia nada, lá se foram os dois jovens cheios de coragem e muita esperança de voltar pra casa com uns beijinhos roubados, no estacionamento do shopping.
- Oi, Você é a Nannyzinha_16?
-Não, sou a Bruninha. Nannyzinha é ela, dizia apontando para a amiga a loirinha que não era nem de perto a deusa imaginada.
Mas não tinha problema. O encanto estava no ar. Aquelas longas horas de excitação virtual se transformavam ali, em uma conversa desajeitada que aos poucos se tornava em algo difícil de explicar, mas que com certeza iria fazer o maior sucesso na segunda feira, na roda de amigos no recreio do colégio. Contar aos colegas a aventura que começou no computador com o famoso NOMIDADE e terminou atrás da escada rolante do Iguatemi em um amasso que não passava de dois ou três beijos roubados, era o atestado de campeão para um garoto daqueles tempos.
O MIRC funcionou durante anos, até que o inevitável tsunami tecnológico o deixou renegado às nossas memórias. Aquelas inocentes conversas, aqueles primeiros passos na vida a dois, aqueles eufóricos mergulhos no imenso oceano de paixões, ficaram marcados na lembrança de cada um daqueles jovens que, no meio do desconhecido, traçaram suas diferentes histórias que hoje são contadas em mesas de bar com um ar nostálgico no olhar e a certeza no coração de que tudo valeu demais a pena. Pena que acabou!